TLON: Quais são suas expectativas para o mercado de securitização num futuro próximo?

PJ: O mercado brasileiro de securitização continua oferecendo a rota mais sólida de expansão das possibilidades de financiamento e investimento na economia brasileira. Este é um mercado que potencialmente pode atingir os universos tomadores e doadores de recursos de forma abrangente e eficiente. Neste momento de inflexão da gestão macroeconômica brasileira, as operações de securitização deveriam ser percebidas como ferramentas essenciais para a retomada do crescimento: tanto através de sua contribuição com estruturas que absorvem ativos problemáticos e os transformam em alguma liquidez, como por intermédio de estruturas que financiam segmentos de destaque, tais como o de infraestrutura, de pequenas e médias empresas, do agronegócio e imobiliário, conectando-os diretamente a investidores que buscam oportunidades de alocação de recursos e de retornos diferenciados.

TLON: Como você caracterizaria o atual estágio de desenvolvimento do mercado de securitização?

PJ: Aí vai depender de qual segmento de securitização estamos falando. O mercado de FIDC já apresenta um marco bastante desenvolvido, fruto de experiências de aprendizado diretamente da prática, o qual se deu de forma desafiante e por isto se provou mais efetivo. A ICVM 531 é resultado direto disto. Já os mercados de CRA e CRI, promissores que são, têm mais espaço para avanço de seus respectivos marcos, com destaque para aspectos relacionados à transparência.

TLON: Qual tem sido o desempenho recente destes mercados?

PJ: Bom, como muitos que acompanham devem saber, o mercado de CRA tem crescido de forma acelerada, sem pausa, há quatro anos. Como os direitos creditórios do agronegócio são regulamentarmente definidos de forma mais ampla, aplicáveis a negócios de toda a cadeia do agronegócio, temos visto um conjunto diversificado de grandes empresas captando através da estruturação de operações de CRA. Este tipo de operação passou a alongar o prazo médio das operações de CRA e se provou financeiramente atraente, tanto para estes captadores como para investidores, principalmente o investidor pessoa física que usufrui da isenção tributária nos rendimentos. Já o mercado de FIDC continuou a atender o segmento de pequenas e médias empresas, exclusas em grande parte do crédito bancário, e também possibilitou várias transações de perfil não padronizado, que apresentam correlação negativa com o crescimento econômico, ou seja, cresceram em um período recente de contração do PIB. Por fim, o mercado de CRI, nosso melhor instrumento de financiamento imobiliário, que é de longo prazo, tende a retomar seu movimento secular de expansão na medida em que os juros voltem a ceder, como já começa a ocorrer.

TLON: As operações pulverizadas de CRA perderam espaço?

PJ: As operações pulverizadas de CRA têm apresentado crescimento em valor consolidado de emissão anualmente. Só que as operações de lastro corporativo cresceram, em termos de montante consolidado emitido, em velocidade bem maior. Os CRA de lastro pulverizado têm prazo mais curto, mas várias operações já envolvem períodos multisafra, tendo a CVM basicamente ratificado este tipo de estrutura de operação, atendidos certos critérios e exigências. Algo relevante neste sentido é a participação incipiente de seguradoras nestas operações, viabilizando um reforço de crédito e uma estrutura que resultam em classificações de risco superiores e relações custo-benefício atrativas para tomadores e investidores. Novos participantes como seguradoras tendem a gerar benefícios para todos os envolvidos, aumentando o conhecimento e a competitividade relacionados à securitização.

TLON: Qual é a contribuição que o mercado de FIDC pode trazer neste momento atual no Brasil?

Como mencionado anteriormente, o mercado de FIDC se viu bastante atuante em um ano complicado para a economia brasileira em 2015. Assumindo um início de virada de mesa com a nova administração federal que agora toma posse, o mercado de FIDC continua tendo um papel potencial de contribuição de grande valia. São muitas as operações já realizadas nos segmentos de energia e saneamento, por exemplo. Existe uma operação de transportes, que viabilizou uma importante captação para a CPTM em momento crítico desta empresa estatal do ponto de vista creditício, que é um “case” de sucesso para todos os envolvidos. O mercado de FIDC tem uma versatilidade que o capacita para atender necessidades de recursos de qualquer segmento econômico e tomador de recursos imaginável. E do lado do investidor, em seu histórico de quase uma década e meia e centenas de bilhões em cotas emitidas, o nível de rentabilidade média auferida se mostrou alto e pouco impactado pelas perdas pontuais ocorridas.

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