Marcos Lisboa, presidente do Insper, marcou presença na trilha educacional do Uqbar Day 2021. No evento, trouxe sua visão sobre a pesquisa acadêmica no Brasil, expondo sua enorme relevância para a economia do país em contraste com suas complexidades de implementação.

O problema é que, no Brasil, “a ideia que acabou se solidificando [é] associada a teses abstratas e a longas narrativas. A história tem começo, meio e fim com dados espalhados que se justificam. Um pacote meio completo”, Lisboa apontou. “Boa parte [dos profissionais da academia] é voltada às narrativas: ‘o mundo é Keynesiano...’ O interesse por problemas específicos é de pouquíssimas escolas do Brasil. A integração com computação e a interdisciplinaridade são mais raras ainda”.

Observa-se, em contraste à nossa realidade, que não é disso que se trata a economia em academias de outros países. “Pesquisa acadêmica lá fora é algo completamente diferente desse debate que a gente assiste no Brasil. Pode-se até ver em jornais, mas não na academia. [Nesta] discutem soluções e problemas reais. Para isso, usamos modelos teóricos não abstratos e resultados bem definidos para estudo”.

O preocupante em não ter uma academia que procura soluções reais para problemas reais é que, carecendo de bons diagnósticos do cenário ou da causa, qualquer intervenção pode ser maléfica e criar uma crise de crédito, por exemplo, como já foi visto tantas vezes no Brasil.

Assim, “todo trabalho de análise estatística de dados requer uma modelagem sofisticada e tecnicamente precisa, levando-se em consideração tempo de reação, reação das pessoas, e o cuidado estatístico. Não tem forma de bolo, é um processo contínuo de melhora das técnicas. As técnicas mudam. A cada ano, novas técnicas surgem, e os dados também mudam”.

Ademais, analisando o funcionamento do mercado de crédito de outros países com dados disponíveis, encontram-se indicadores que refletem como as regras do jogo no mercado de capitais influenciam o desenvolvimento daquele país, visto que “países que resolvem problemas mais rápido tendem a ser mais ricos”.

“Bom, diante disso, a agenda natural é: se quisermos melhorar o mercado de crédito no Brasil, temos que enfrentar os problemas originais. Como ter processos mais ágeis e consertar aquelas características? Há conflitos legítimos, que precisam de formas legais e eficientes para serem resolvidos”, disse Lisboa.

Desenvolver o mercado de crédito exige mudar o processo de recuperação de garantia, ele explicou. Esperar anos para retomar um cargo devido a ineficiências legais e processuais não faz sentido. Porém, leis gerais não funcionariam pois não têm um impacto no sistema jurídico brasileiro. Dessa forma, são necessárias análises particulares dos casos, com uso de micro dados.

Portanto, a academia brasileira deve, de acordo com as considerações de Lisboa, testar hipóteses com cuidado e não ficar na guerra de narrativas. Além disso, os formuladores de políticas públicas devem passar a ser responsabilizados por suas errôneas inferências e interferências, não tendo hoje reconhecimento público do fracasso. Assim, expostas suas visões sobre a relevância e o progresso da pesquisa acadêmica no país, o doutor deixou o palco do evento.

 

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